Comida é biodiversidade e cultura alimentar brasileira

Alimentar é um ato generoso

Entrevista com os pesquisadores Cristina Maria de Castro, Eng. Agrônoma, pesquisadora Científica VI, Antonio Carlos Pries Devide, especialista em Sistema Agroflorestais, ambos do Polo Regional do Vale do Paraíba/Apta Regional/ Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.
Neste momento de pandemia da Covid-19, nos deparamos com o aumento das taxas da fome agravada pela miséria da população sem emprego, das crianças e jovens sem as aulas presenciais na rede pública de ensino. A segurança alimentar e nutricional das pessoas em vulnerabilidade social não pode ser assegurada sem a ingestão de alimentos frescos e seguros, mas o acesso a alimentos de qualidade fica quase impossível quando sanar a necessidade física dependem de doações de alimentos, na maioria industrializados.

A engenheira agrônoma Cristina Maria de Castro da APTA/SAA – Polo Regional Vale do Paraíba

No que se refere a escolha dos alimentos para compor o prato do dia a dia, o papel da mulher na disseminação de conhecimento da cultura alimentar ainda é imprescindível. É a mulher a responsável pela escolha dos alimentos, mesmo com tantas atribuições e responsabilidades outorgadas a ela pela sociedade patriarcal. A mulher executa o seu papel de cuidadora trazendo consigo o que aprendeu e consegue disseminar o conhecimento da cultura alimentar – essa tem sido a melhor fonte de conhecimento de geração em geração. O que se come, quando, com quem, por que e por quem é determinado culturalmente através dos povos.
Para tratar desses assuntos que envolvem a Segurança Alimentar e Nutricional, a escolha dos alimentos, a cultura alimentar e as plantas alimentícias não convencionais, nos reportamos aos pesquisadores Cristina e Antonio, acompanhe a entrevista.

A produção mundial atual de gêneros alimentícios é maior que a necessária para alimentar a população do planeta, infelizmente, o desperdício de alimentos no Brasil, acontece desde a produção, passando pelo transporte e varejo. No Brasil, as doações de alimentos esbarra em leis que burocratizam ainda mais a doação de alimentos frescos e preparados deixando comerciantes e sociedade civil com medo de doar alimentos. Na sua opinião, o quê, de fato, contribui para sanar o desperdício de alimentos?
Cristina Maria de Castro:
O que pode contribuir para sanar o desperdício de alimentos é a melhoria da formação educacional das pessoas, seja em termos do consumismo, quanto do desperdício. Para esse trabalho se iniciar dentro da própria casa, é necessário iniciar uma campanha de conscientização que se inicia nas escolas. Pois, na maioria dos lares ocorre muito desperdício, muito alimentos vão para o lixo por desconhecimento de boa parcela da população, que é refém do consumismo exagerado. Muitas pessoas compram mais alimentos do que consomem na semana, ocasionando a deterioração de boa parte dos mesmos alimentos na geladeira ou na dispensa. Para reduzir o desperdício de alimentos foi sancionada a Lei nº 14.016, de 23 de junho de 2020, que dispõe sobre o combate ao desperdício de alimentos e a doação de excedentes de alimentos para o consumo humano. Na legislação anterior o doador era responsabilizado por quaisquer danos que o alimento doado viesse a causar a quem o recebesse. Assim, com a nova lei, os estabelecimentos ficaram isentos do risco de penalização, o que incentiva a doação de alimentos. Dessa forma, muitas pessoas e entidades estão sendo beneficiadas com alimentos que antes eram descartados porque o prazo de validade estaria para vencer, como por exemplo. Com a situação da pandemia, hoje em dia, são inúmeras famílias em situação de fome que obtém o alimento na xepa ou no lixo das feiras e entrepostos de distribuição de alimentos.

Neste momento de pandemia da Covid-19, nos deparamos com a volta da miséria e da fome. As doações de alimentos para as pessoas que se encontram vulneráveis diante da insegurança alimentar e nutricional pode acentuar ao ingerir alimentos industrializados e de calorias vazias?
Cristina Maria de Castro:
A pandemia comprometeu e reduziu a capacidade de produção e distribuição de alimentos sem termos efetivamente políticas públicas para reduzir este impacto. Antes mesmo da pandemia, foram extintos a nível federal conselhos e órgãos (como CONSEA – Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), que possuíam anos de atuação com diversos grupos de pesquisas representados atuando de maneira estreita com grupos populares e organizações do terceiro setor, cujas ações serviam de base na organização de fóruns de discussão para a elaboração de políticas públicas sociais em prol da alimentação saudável. Há movimentos da sociedade civil organizada que são importantes no combate à fome, à miséria, à desnutrição e à insegurança alimentar. A opção de oferecer como benefícios emergenciais cartões com crédito para a compra de alimentos, exclui a possibilidade de compra direta de feirantes, de pequenos produtores, que já foram prejudicados com a impossibilidade de venda devido à pandemia por desestruturação dos programas governamentais de aquisição de alimentos e da desestruturação de políticas importantes, como a extinção do Ministério do Desenvolvimento Agrária, rebaixado ao nível de secretaria de governo. Isso, dificulta com que produtos frescos de boa qualidade nutricional chegue às creches, às escolas e hospitais, ou mesmo a compra direta durante a pandemia com incentivo governamental.
O que se vê é que tem sido cada vez mais privilegiada a compra de alimentos ultraprocessados, não perecíveis, de baixo teor nutricional e cheio de ingredientes químicos que são prejudiciais à saúde, além do excesso de açúcar, sal, gorduras trans e saturadas. O relatório “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, (disponível em: https://refubium.fu-berlin.de/bitstream/handle/fub188/29813/WP_%234_final_version.pdf?sequence=2&isAllowed=y), demonstra que houve uma redução geral na disponibilidade de alimentos nos domicílios em situação de insegurança alimentar, inclusive, de alimentos considerados não saudáveis (bolachas, miojos, etc.)

A insegurança alimentar e nutricional ocorre também nos lares com poder aquisitivo médio e alto. Dentre a disponibilidade de alimentos, a população tende a ingerir a pobreza dos ingredientes, as calorias vazias, a monotonia das refeições e a ausência do colorido no prato, e, consequentemente o alto índice de obesidade tanto em crianças como em adultos. Podemos dizer que a escolha dos alimentos no dia a dia está mais relacionado ao prazer do que a uma escolha de comida que alimenta o organismo?
Cristina Maria de Castro: A escolha da alimentação no dia a dia vem sendo ditada por grandes corporações, com massificação da propaganda em todo tipo de mídia. Incentivam desde o local onde comprar, comer comidas prontas, processadas, congeladas, fast foods, quase sempre mostrando equivocadamente o padrão de praticidade do dia a dia ao aspecto saudável do consumidor. Outro fator importante que merece atenção é que essas grandes empresas disputam toda oportunidade de mercado e atualmente estão tentando se apoderar, também, do mercado “verde”. Grandes corporações estão investindo nas comidas veganas, vegetariana, naturais, com apelo de substituir a carne com alimentos à base de proteína vegetal, porém com as mesmas tendências dos alimentos já existentes no sistema alimentar, ou seja, produtos processados ao invés de produtos frescos. A escolha dos alimentos, atualmente, tem vários fatores e um dos primeiros, no meu ponto de vista, é a falta de informação clara do que está se consumindo, além da falta de tempo e da rotina sobrecarregada de muitas mulheres que hoje em dia assumem uma rotina dobrada, trabalham fora e cuidam da casa, assim, precisam de alimentos rápidos e práticos.

As informações e pesquisas atuais sobre qual porcentual da flora nativa possui potencial alimentício, quais são as espécies, seus valores nutricionais, formas de processamento, técnicas de cultivo e manejo, seriam suficientes para compor pratos variados de valor nutricional seguros do dia a dia ?
Cristina Maria de Castro: Muitos fatores contribuem e contribuíram para que as pessoas deixassem seus hábitos alimentares, passando a consumir a mesma comida no dia a dia, com uma monotonia alimentar, representada por pouca diversidade de alimentos. A globalização, grandes corporações dominando o mercado, massificação da mídia, levaram à perda de identidade cultural e alimentar. O brasileiro também não valoriza o saber ancestral como os orientais o fazem. Nesse sentido, apesar de sermos um país com uma das maiores biodiversidades do planeta, com aproximadamente 15 a 20% das espécies, sendo conhecidas cerca de 50.000 espécies, e levando em conta aproximadamente que 20% são alimentícias, em torno de 10.000 plantas com potencial alimentício (Kinupp, 2014), não recebemos dos antepassados os conhecimentos da cultura alimentar. Isso também resulta do modelo de colonização, que desprezou muitos conhecimentos indígenas sobre o uso e domesticação das plantas. A falta de conhecimento do potencial dessas plantas alimentícias nativas, muitas vezes tratadas com desprezo como “mato, inço, praga” e que é comida saudável para diversos animais (porcos, galinhas, etc.), nos faz humanos pobres em termos nutricionais devido à pouca utilização dessa diversidade no prato de cada dia. Há necessidade de maior divulgação, reconhecimento e incentivo ao consumo das PANC e frutas nativas por meio de políticas públicas que valorizem a agrobiodiversidade local e regional e a segurança alimentar. Porém, há muitas frentes de trabalho que estão ganhando espaço na mídia, como os chefs de cozinha, pessoas de renome que estão trabalhando com afinco no resgate de valores culturais ligados à alimentação que envolve todo um rol de conhecimentos, como a correta identificação e a forma de preparo e uso. Algumas dessas plantas são mais rústicas e possuem substâncias classificadas como antinutricionais, podendo causar alguma reação alérgica nas pessoas ou tornar alguns nutrientes indisponíveis. Podemos citar, como exemplo, as plantas da família Araceae, como a taioba e o inhame, que possuem ácido oxálico, que pode causar irritação nas mucosas da boca e levar ao fechamento da glote em pessoas mais sensíveis. Essas plantas não devem ser consumidas cruas, sempre após cozimento, são ricas em nutrientes e ativadoras das defesas do organismo. Por isso, o conhecimento, a educação e a cultura são as melhores ferramentas em defesa dessas plantas na boa alimentação.

Infelizmente, 90% da alimentação mundial vêm de apenas 20 alimentos, atualmente deve ser menor. Esse dado corresponde as mesmas descobertas pelos nossos antepassados do Neolítico, onde a agricultura teve início que foram incorporadas por quase todas as culturas existentes. Essa escassez de alimentos oferecidos definiu a educação alimentar e o paladar da população?
Cristina Maria de Castro: Acho importante consideramos que a cultura ancestral teve um papel importante na domesticação de quase todas as plantas que consumimos hoje em dia. E essa base genética não é tão estreita assim, como está registrado hoje em dia, em relação ao que consumimos. Prefiro achar que essa redução é fruto da globalização, que leva à perda da história local, que padroniza comportamentos e também uniformiza os hábitos de consumo. O Brasil é muito rico em biodiversidade, em ambiente e em culturas vindas das matas e dos campos. Os indígenas nos deixaram um legado enorme sobre diversas espécies de plantas que hoje em dia se encontra nas gôndolas dos hipermercados, como abacaxi, mandioca, feijões, maracujá, amendoim e muitas outras. Mas, não encontramos a diversidade de espécies de frutas nativas, como o cambuci, o araçá, o cambucá, a jabuticaba, a cagaita, o pequi, o jatobá, o pinhão da araucária, o jerivá, o babaçu, a gabiroba, a juçara e outras dezenas, talvez, centenas ou milhares de espécies de frutas nativas que ainda existem no Brasil nos diversos biomas e que poderiam ser transformadas em paçoca, farinhas, barrinhas de cereais, frutas secas, xaropes, vinagres, licores, sucos, etc. Isso, sem falar nas folhosas, flores, grãos, resinas, tinturas, etc. Então, prefiro achar que o que perdemos nessa evolução está sendo redescoberto agora. Esse patrimônio vem sendo estudado e resgatado como nunca foi feito, não só no Brasil, mas em diversas partes do mundo. Se por um lado a globalização reduziu nossa base alimentar comercial, assim falando, por outro, deu motivos para que um exército de pessoas muito bem qualificadas e esclarecidas realizasse inúmeros estudos, montassem hortos botânicos, dessem cursos e palestras, trocassem sementes. Enfim, somos todos multiplicadores e agradeço a vocês porque nesse momento estamos cumprindo nosso papel como seres viventes que receberam um planetinha lindo para cuidar.

O que envolve a definição da escolha dos alimentos para a composição diária dos cardápios?
Cristina Maria de Castro: Uma alimentação precisa ser equilibrada. Apesar dessa resposta ser da área da nutrição, como tenho filhos e preciso alimentá-los, aprendi que é sempre bom termos no prato um certo equilíbrio de alimentos. Metade do prato dividido entre arroz e feijão, que são dois alimentos básicos do prato dos brasileiros; um quarto com proteína animal ou vegetal, pra àqueles que não desejam consumir carnes; e o outro quarto completo com fonte de fibras (salada). Isso é no geral, porque há muitas receitas que você pode variar esses ingredientes, enriquecê-los com o feijão gordo com legumes, raspas, talos e folhas, que normalmente iriam ser descartados. É preciso, nessa resposta, envolver o aproveitamento integral dos alimentos.

A nossa alimentação é monótona. Ainda não temos a disposição para compra nas redes varejistas geleias de jabuticaba, de butiá, de cambuci, de guanandi, de mapati, dos araçás, de pitomba, de bixixu ou mirtilo-amazônico. Pior que isso, é o fato dos produtores e ou brasileiros cortarem as frutas que nascem espontaneamente na sua rusticidade. O conhecimento popular e regional é importante para a transmissão da cultura alimentar?
Cristina Maria de Castro: Essa monotonia alimentar não se deve à falta de opções, pelo contrário. Deve-se à falta de conhecimentos sobre a existência dessas espécies, suas características, formas de cultivo e consumo. Não tem como falar em diversidade sem falar em cultura alimentar, sem falar da importância da alimentação em nossas vidas. O alimento representa muito do que somos, nossa história, das diferentes Regiões e Países. Falando só em termo de Brasil, temos diferentes biomas, com diferentes frutos, sabores e saberes. Citando alguns exemplos, a Amazônia possui plantas de sua biodiversidade, utilizadas na culinária regional, por exemplo o jambu (Acmela oleraceae), em pratos típicos da região como o tacacá o pato no tucupi; no Norte, no Maranhão, tem a vinagreira (Hibiscus sabdariffa), parte do prato típico patrimônio imaterial, Arroz de Cuxá; No Nordeste a macaxeira (Manihot esculenta); no Sudeste, temos o cambuci (Campomanesia phaea), jabuticaba (Myrciaria spp), araçás (Psidium spp), araruta (Maranta arundinaceae) que já era cultivada pelos índios quando da chegada dos portugueses; no Cerrado, temos o baru (Dipteryx alata), mangaba (Hancornia speciosa), pequi (Caryocar brasiliense), e uma infinidade de plantas. Se olharmos num passado não muito distante, nossos pais, avós, consumiam sementes. As receitas eram repassadas de avos para pais, para os filhos, netos. O conhecimento popular e tradicional é um importante recurso para identificar diferentes espécies de plantas com potencial alimentar, essa é uma parte da ciência, a etnobotânica que se dedica ao estudo e levantamento de conhecimento gerados pelos próprios produtores e transmitidos ao longo do tempo e de maneira oral. Essa ordem popular e informal estava à margem do sistema de pesquisa formal, mas hoje em dia há muitos olhares para a sua importância. Outro ponto a ser vencido após ter conhecimento e valorizar o potencial alimentício da nossa diversidade, encontra-os em feiras e supermercados, o que só vai acontecer a partir do momento que houver uma maior procura dos consumidores com políticas públicas do governo em prol da transição de modelos de produção de monoculturas para produção de base agroecólogica. Mas, sinceramente, acredito que esse movimento transformador da reeducação alimentar não vai se consolidar com a mesma lógica dos grandes conglomerados de mercados e empresas transnacionais, como ocorreu com o açaí e a castanha do Pará, e nem através de um programa de incentivo do governo. Na verdade, essa transformação vai se dar por meio da atuação popular, dos multiplicadores, sejam chefs ocupando canais nobres de televisão, sejam indígenas ou neo rurais plantando e vendendo em pequenos circuitos seus alimentos. Outra coisa que está no ar, é a pandemia, que nos fez repensar diversos hábitos. Existe um boom de pessoas querendo voltar para o meio rural e muitas delas são pessoas que nasceram e sempre viveram no meio urbano. Os tempos estão mudando. Nós temos um “Guia Alimentar Brasileiro” (2014), referência mundial, com orientações de como combinar alimentos na forma de refeições e o reconhecimento da alimentação de maneira regionalizada, levando-se em consideração as características da culinária local, destacando aspectos relativos à cultura e identidade alimentar das macrorregiões do Brasil.

Mesmo com toda a riqueza da nossa biodiversidade, a matriz agrícola está apoiada na exploração comercial de poucas espécies exóticas domesticadas. A agricultura brasileira (agronegócio) está baseado em recursos genéticos exóticos: cana-de-açúcar da Nova Guiné, café da Etiópia, arroz da Filipinas, soja, laranja e muitos outros cítrus da China, batata-inglesa da Região Andina, milho do México, cacau do México e da América Central. As plantas alimentícias consideradas nativas do Brasil mais importantes em escala global, são apenas a mandioca e o famoso amendoim. As pesquisas com plantas alimentícias não convencionais avançaram até que ponto?
Cristina Maria de Castro: As pesquisas com as PANC são recentes mas, vem crescendo muito nos últimos anos, devido, principalmente, às várias funções benéficas para nossa saúde (alimentos funcionais) com ações recentes de divulgação das PANC, que passaram a ter certo espaço na mídia e também em outros espaços, como livrarias e bibliotecas, por exemplo, com a publicação do livro Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil: guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas de Kinupp & Lorenzi (2014).
Porém, um dos maiores problemas enfrentados por pesquisadores e demais profissionais que trabalham em pesquisas técnicas sobre PANC, levantamentos etnobotânicos, elaboração de produtos utilizando PANC entre outros, está na falta de apoio e incentivo de órgãos públicos e/ou privados que financiem este tipo de estudo. Existem poucos periódicos especializados sobre o tema, por conta do caráter interdisciplinar dos estudos sobre PANC e, dentre a gama de periódicos científicos do Brasil, não há um periódico sequer dedicado ao tema, o que obriga os pesquisadores a encontrar alternativas para a publicação de seus artigos. Mas é notório o crescimento de estudos e interesses tanto pelo meio científico e técnico como da população na valorização da nossas biodiversidade e inclusão desses alimentos em nosso cardápio.

 

“Guia Alimentar Brasileiro” (2014)

 

Antes da pandemia da Covid-19 tínhamos a revalorização dos alimentos regionais, naturais,  pelo glamour do apelo midiático. Esse apelo midiático é importante para influenciar as escolhas e decisões dos consumidores, pesquisadores, agricultores e chefs?
Cristina Maria de Castro: Sim, com certeza essa ampla divulgação na mídia e utilização e incorporação de ingredientes da nossa cultura alimentar por chefs renomados tem dado maior divulgação, e aumentado a demanda de consumo e a produção dessas plantas por parte de produtores familiares e agroecológicos. Importante salientar aqui, esse apelo de consumo não fique restrito ao nicho pequeno de consumidores. Muito tem se falado e comentado mas, efetivamente aqui entra a Soberania Alimentar, onde a população tem conhecimento, valorização, cultivo e consumo de plantas utilizadas e repassadas de geração a geração. E essa valorização da cultura alimentar tem que estar no dia a dia, no prato, nos hospitais e na escola, não deve ficar somente como “folclore”, ou em feiras típicas. Por exemplo a polpa de açaí e guaraná tem que estar na merenda escolar do Norte, a polpa de juçara na região Sudeste, o ora-pro-nóbis, enriquecendo pães, bolos, e pratos do Brasil todo, enfim, a popularização e utilização efetiva no dia a dia.

O apelo midiático que envolve os alimentos têm trazido a mensagem de que os alimentos podem “prevenir” ou “curar” doenças, como uma estratégia de consumo. Alimento não é remédio. A Sra. pode comentar sobre esse apelo de convencimento midiático?
Cristina Maria de Castro: Citando aqui Hipócrates, considerado o pai da medicina ocidental “que seu alimento seja seu remédio”, as plantas alimentícias não convencionais são rústicas, ricas em nutrientes, resilientes, sobrevivem as condições adversas, ricas em compostos bioativos, como antioxidantes, corantes, flavonóides, entre outros. Algumas já são bem estudadas com comprovações científicas sobre suas propriedades anti-inflamatórias, como a cúrcuma (Curcuma longa). Essas plantas com propriedades funcionais auxiliam na promoção e manutenção da saúde, e seu uso deve estar associado as práticas saudáveis, de alimentação, esporte e bem-estar emocional. Temos uma excelente orientação no “Guia Alimentar para a População Brasileira”, onde o foco não deve ser unicamente nos nutrientes mas, na ingestão de alimentos minimamente processados e sustentáveis e na manutenção de refeições tradicionais e padrões alimentares. Também enfatiza as dimensões sociais da alimentação, de quem você compra, se valoriza comercio local, os circuitos curtos de comercialização, alimentos agroecológicos da agricultura familiar, consumindo alimentos frescos, isentos de contaminantes químicos e conservantes.

Qual é a importância do papel da mulher, chefe de família ou não, na transmissão da cultura alimentar para as novas gerações?
Cristina Maria de Castro: Tradicionalmente, a mulher é a cuidadora da alimentação, porém, atualmente, o protagonismo deste ser no cuidado da família vem se modificando e tornando-se mais equilibrado entre os gêneros feminino e masculino. Mas, sem dúvida, as mulheres ainda têm um papel fundamental na sustentabilidade da vida no planeta, na manutenção e na conservação dos territórios e defesa dos bens comuns (dos alimentos). Através dos seus conhecimentos e saberes desenvolvidos com as plantas medicinais, guardiãs de sementes, de receitas, nas práticas agroecológicas em quintais, nos arredores da casa, ricos em diversidade de espécies que abrange desde a produção de hortaliças, frutíferas, forrageiras, medicinais, criações de aves e outros pequenos animais, as mulheres têm contribuído tanto na saúde, quanto na soberania e segurança alimentar e nutricional de suas famílias, além de transmitirem os conhecimentos para novas gerações.

 

 

 

A couve é uma espécie exótica, foi introduzido pelos portugueses e, ainda hoje, está presente até em hortas de aldeias indígenas. Mas as folhosas regionais não estão nas feiras com regularidade, qualidade e quantidade. Por que oferecer esses alimentos à população demanda grandes explicações do que é, seu nome e formas de preparo? As plantas alimentícias não convencionais são os novos ou antigos ingredientes que vêm somar para diversificar ?
Cristina Maria de Castro:
Hábitos alimentares que herdamos dos nossos colonizadores, a couve faz parte da alimentação de várias regiões do Brasil, a exemplo de Minas a tradicional couve com tutu de feijão. Porém, temos muitas outras opções de folhas verdes a serem oferecidas para o consumidor, variando de região para região, tem a serralha (Sonchus oleraceus), bertalha (Basela alba), major gomes (Talinum paniculatum), caruru (Amaranthus spp.), beldroega (Portulaca oleraceae), almeirão roxo (Lactuca canadensis,), pariparoba (Piper umbellatum), chaya (Cnidoscolus aconitifolius), entre outras. Todos podem ser consumidos de maneira semelhante à couve refogada, acompanhando pratos diversos, todos riquíssimos em nutrientes e na maioria das vezes essas espécies aparecem de maneira espontânea em hortas, beiras de matas, quintais, entorno das habitações, seja no campo, quanto na cidade.

O produtor rural familiar abriu mão do conhecimento da cultura alimentar regional para priorizar a produção de alimentos agroalimentares?
Cristina Maria de Castro:
O produtor rural tem na sua prática o seu sustento, precisa sobreviver, é a lei do mercado de oferta e procura. Nas feiras, supermercados, e mesmo entrega de cestas, eles têm que se adequar ao que o mercado pede. Faltam políticas públicas de maior valorização e comercialização dessas plantas da biodiversidade brasileira, para que se estabeleça um novo padrão de consumo que gere uma demanda com frequência que justifique a produção escalonada por parte dos produtores.
Mas, acredito também que esse movimento independe do mercado e que roteiros alternativos cada vez mais irão ganhar espaço. Acho, que diante de tanta diversidade de gente, será natural cada um ocupar seu espaço na sociedade e ser um protagonista dentro da área de atuação, seja ligada ao mercado formal de produtos padronizados e convencionais, seja em roteiros alternativos com as PANC e toda biodiversidade que tanto admiramos e desejamos trazer para nossas vidas.

Quais plantas alimentícias não convencionais que sobrepõe as plantas alimentícias convencionais no valor nutricional devem constar nas hortas caseiras?
Cristina Maria de Castro:
A maioria das espécies possuem altos teores de nutrientes, porém vou citar aqui, algumas fáceis de cultivar e se adaptam bem na maioria das regiões. O primeiro é major gomes (Talinum paniculatum), com alto teor proteico e muito rica em minerais, especialmente cálcio, ferro, magnésio e potássio; a bertalha (Basela alba), riquíssima em ferro, produz durante o verão todo, a taioba (Xanthosoma taioba), nativa do Brasil, suas folhas são saborosas e nutritivas, devem ser consumidas BEM refogadas; fonte de vitamina A e C, rica em ferro, potássio; o ora-pro-nóbis (Pereskia spp), rica em proteína, ferro e vitamina C. Nos jardins comestíveis ainda podemos cultivar a beldroega (Portulaca oleraceae) e a capuchinha (Tropaeolum majus) com flores abundante na maior parte do ano. Essas PANC podem ser cultivadas em vasos, jardineiras, garrafas PET, bambus ou diretamente em canteiros, devendo receber sol pelo menos em uma parte do dia. Da capuchinha consome-se quase tudo; suas folhas são ricas em ferro e vitamina C e as flores são excelente fonte de substâncias antioxidantes e carotenoides. De sabor picante que lembram o agrião, a capuchinha ornamenta saladas e suas sementes verdes (imaturas) podem ser beneficiadas em salmouras que lembram a alcaparra. Já a beldroega, conhecida como onze horas, possui flores amarelas pequenas, floresce o ano inteiro diminuindo no inverno. As folhas suculentas são consumidas jovens em saladas ou cozidas ao vapor, ou quando velhas para engrossar e enriquecer sopas. É rica fonte de minerais (cálcio, fósforo, magnésio, sódio, potássio e ferro), vitamina C e ômega 3. Cultivada em todo o país, a beldroega se propaga por meio de sementes ou pedaços dos ramos diretamente em canteiros ou vasos.

A produção comercial de mudas de plantas alimentícias não convencionais vêm crescendo nos últimos anos. Podemos confiar na genética dessas mudas de plantas oferecidas comercialmente?
Cristina Maria de Castro:
Há pouca informação sobre este tema. Na minha realidade que é a pesquisa, eu coleto as sementes e reproduzo a maioria das espécies. Muitas vezes tenho problemas, com algumas espécies as sementes não germinam quando semeadas como hortaliças convencionais. E quando vou ao campo, meses depois de coletar as sementes, mesmo plantando outra espécie no local, me deparo com um monte de plântulas crescendo em associação. Há muitas informações que precisam ser levantadas, como dormência, substâncias que retardam a germinação como estratégia de sobrevivência da espécie. Precisamos pensar que são plantas que não tiveram ação humana para seleção e melhoramento. Os estudos sobre sementes são uma área específica da ciência. Há muitas peculiaridades nas famílias botânicas. Uma linha da pesquisa de arqueobotânica estuda as sementes, pólens para determinar os eventos que aconteceram naquela determinada área por séculos atrás e às vezes, milênios atrás. Volta e meia são notificadas sementes em urnas funerárias conservadas. Precisamos de mais estudos mas, infelizmente, a maioria do que foi feito até hoje visou a eliminação dessas plantas das áreas de produção. Precisamos resgatar esses estudos e utilizá-los para nosso benefício.
O que devemos levar em conta ao coletar uma planta alimentícia não convencional para o consumo humano?
Cristina Maria de Castro: Alguns pontos devem ser considerados antes de coletar e/ou consumir uma PANC: primeiro, é a correta identificação. Na dúvida, consulte um especialista, ou um produtor, ou morador antigo que saiba reconhecer. Coletar plantas em locais públicos e consumir fresca (in natura) é perigoso, pois podem estar contaminadas com urina de rato e animais domésticos. O melhor é coletar a semente e/ou muda e levá-las para o plantio na sua casa.
Considerações finais:
Cristina Maria de Castro: É necessário uma reconexão, com o alimento, independente de ser PANC ou não. Antigamente comíamos para ter saúde, hoje nos alimentamos e adoecemos, parece um paradoxo, mas é o que tem ocorrido. Um dos maiores problemas de saúde mundiais, não somente do Brasil, são as DCNT (doenças crônicas não transmissíveis), ocasionadas devido a alimentação inadequada, entre elas, a hipertensão, sobrepeso, diabetes tipo II, entre outras. Doenças essas que estão afetando inclusive nossas crianças. É urgente repensar nossos hábitos alimentares, nós somos o que comemos, abrir menos embalagens e descascar mais.
E, em tempos de pandemia, muitos estão ficando mais em casa, redescobrindo seus quintais, varandas, jardins, e sacadas de apartamentos. O hábito de cultivar alimentos plantar e colher, mesmo que um tempero, tem levado a melhorias significativas no bem estar físico e emocional. As PANC podem ser cultivadas em vasos na sacada e varandas ou em jardins comestíveis, sendo uma oportunidade de melhorar alimentação e conhecer melhor nossa biodiversidade.

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